Por Vanessa Klevenhusen
Somos indivíduos que já
começamos a vida com uma perda, pois ao nascermos saímos daquele lugar
quentinho, aconchegante e silencioso que é o útero e somos lançados para um
mundo que, num primeiro momento, é barulhento, frio e desconfortável. Chegando
neste lugar diferente, iremos viver num estado de identificação completa com a
nossa mãe. Essa conexão original de um estado de prazer indescritível é a
ligação umbilical, a identificação biológica que se dá no útero. Fora do útero
mantemos essa sensação ilusória e muito gratificante de compartilhar com nossa
mãe uma fronteira comum.
É verdade que não temos qualquer tipo de lembranças
conscientes de quando estávamos no útero de nossa mãe, e nem mesmo quando o
deixamos. Mas é real que um dia esse útero foi nosso e que tivemos que
deixá-lo. E, apesar de estarmos entrando neste jogo cruel de desistirmos do que
amamos para crescer e, embora esse tipo de atitude precise ser repetido a cada
novo estágio de desenvolvimento; talvez essa seja a nossa primeira e certamente
mais difícil renúncia. “A perda, o abandono, a desistência do paraíso”. (Viorst,
Judith, Perdas Necessárias, São Paulo, Melhoramento, 2005, pg. 33).
Essa primeira perda é necessária para entrarmos nesse mundo
dos neuróticos. A partir dela, iremos vivenciar outros tipos de perdas como
separações, frustrações, mortes que, muitas vezes, são imprescindíveis para o
nosso desenvolvimento como indivíduo. Nesses momentos difíceis do nosso
cotidiano gostaríamos que nossa mãe não nos deixasse sofrer. Mas evitar
o sofrimento ou mesmo o trauma de uma criança não lhe falando sobre um acontecimento
grave que lhe diga respeito é causar uma dor ainda maior. A verdade, mesmo
sendo dura e evocando tristeza é sempre melhor que o não dito. O que destrói
uma criança é sempre o que não lhe é falado, pois ela
sempre sabe, mesmo que intuitivamente, a verdade.
É importante entender que até
os 9 anos a criança é extremamente sensível e intuitiva, pois ela está na
fase de latência e isso faz com que todas as energias da criança sejam
empregadas no sensorial das mãos, dos ouvidos, dos olhos, do corpo e da inteligência
como um todo. Essa maior sensibilidade da criança nas mãos, nos olhos e nos
ouvidos é bastante reduzida na puberdade, pois um impulso de energia vai para a
genitália, desertando, assim, essa sensibilidade sensorial. É possível ver isso
também em pessoas que ficam cegas. Essas pessoas passam a ter mais
sensibilidade em outros órgãos para compensar a falta da visão.
Pela linguagem, as crianças
são capazes de apreender
informações através da forma como o adulto as expressa, ou seja, através do corpo.
Mas, apreender não é o mesmo que compreender, pois, para a criança compreender
ela precisa de um adulto que lhe fale o que está acontecendo. Caso contrário
ela usa a sua imaginação para entender, por exemplo, porque sua avó não a
visita mais. Os adultos sabem que a avó morreu, mas a criança pode imaginar que
sua avó a abandonou e não gosta mais dela e, por isso, os adultos estão tão
tristes.
Então, como devemos reagir com
uma criança quando em nossa família a mãe ou um parente muito próximo se
suicida? Seguindo nossa linha de raciocínio o importante é dizer a verdade.
Claro que a forma de comunicação com a criança precisa ser adequada à sua faixa
etária, mas é preciso que ela saiba do acontecido. Sabemos que falar
imediatamente nem sempre é possível, seja porque não temos estrutura emocional
e psicológica, ou porque não sabemos como dizer o que aconteceu, sendo preciso
elaborar tudo para então falar com a criança. Sendo assim, não há uma data
específica para que a criança saiba, pode ser dito imediatamente ou após 8 dias
ou 15 dias ou um mês, o importante é que a desgraça seja dita. E quando for
comunicar à criança diga a ela claramente:
- Ele morreu.
- Mas como?
- Isso se chama suicídio.
- Mas o que isso quer dizer?
- Não estou conseguindo falar
sobre isso com mais detalhes agora, estou muito triste, podemos conversar
melhor, em outro momento, ou então pergunte para seu pai, ou seu Tio, que
talvez eles estejam podendo falar sobre isso agora.
É importante que o desejo da
criança seja justificado e que ela possa abrir a possibilidade para esclarecer
as suas dúvidas com outras pessoas. E nós adultos podemos sim dizer o quanto
estamos tristes e o quanto não estamos conseguindo falar sobre o assunto ainda.
Imaginemos outro caso. A
criança está na época de férias quando sua avó materna morre. Essa é uma avó
muito querida e muito presente na vida dessa criança, por isso, os pais
preferem não contar nada à criança para não estragar as suas férias. Os pais
estão arrasados, em seus rostos pode-se ver a tristeza estampada, mas eles
acreditam que conseguem esconder da criança tudo que está acontecendo.
Quando esta criança volta de
férias ela quer ver a avó, mas os pais estão sempre inventando uma desculpa:
- Bem, não dá, a sua avó está
no hospital.
E depois ela está sempre no
hospital. O Natal se aproxima, a criança quer chamar a avó para passar o Natal
com a família e então mais uma desculpa é inventada:
- Ah, não a sua avó está muito
cansada.
- Mas, posso ligar para ela?
- Não, melhor não, pois ela
pode se cansar.
E a coisa vai se arrastando
dessa forma e pouco a pouco se abre um fosso e a criança se deprime.
Esse tipo de história onde as
pessoas negam a morte de alguém próximo, seja avó, ou um amigo, ou mesmo um
animal de estimação traz um grande sofrimento para a criança. “E essas crianças
começam lentamente a perder a vitalidade porque não dispõem das palavras para
dizer onde está a sua tristeza. Há nelas algo intenso que é desvitalizado. É
preciso, pois, contar-lhes a verdade imediatamente”. (Dolto, Francoise, Tudo é linguagem,
São Paulo, Martins Fontes, 2002, pg. 59).
Quando se diz a verdade para a
criança ela consegue simbolizar, representar a dor, seja através de desenhos,
fantasias, imaginações, dramatizações. Sendo assim é preciso falar sobre a dor
para que esta seja resignificada e a criança não caia em um vazio, onde não
consegue dar nome aos seus sentimentos. É preciso que o luto seja vivido e não
negado, pois o sofrimento e a perda são sempre muito necessários para o nosso
crescimento como indivíduo.
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