sábado, 8 de setembro de 2012

Perdas Necessárias

Por Vanessa Klevenhusen


Somos indivíduos que já começamos a vida com uma perda, pois ao nascermos saímos daquele lugar quentinho, aconchegante e silencioso que é o útero e somos lançados para um mundo que, num primeiro momento, é barulhento, frio e desconfortável. Chegando neste lugar diferente, iremos viver num estado de identificação completa com a nossa mãe. Essa conexão original de um estado de prazer indescritível é a ligação umbilical, a identificação biológica que se dá no útero. Fora do útero mantemos essa sensação ilusória e muito gratificante de compartilhar com nossa mãe uma fronteira comum. 

É verdade que não temos qualquer tipo de lembranças conscientes de quando estávamos no útero de nossa mãe, e nem mesmo quando o deixamos. Mas é real que um dia esse útero foi nosso e que tivemos que deixá-lo. E, apesar de estarmos entrando neste jogo cruel de desistirmos do que amamos para crescer e, embora esse tipo de atitude precise ser repetido a cada novo estágio de desenvolvimento; talvez essa seja a nossa primeira e certamente mais difícil renúncia. “A perda, o abandono, a desistência do paraíso”. (Viorst, Judith, Perdas Necessárias, São Paulo, Melhoramento, 2005, pg. 33).

Essa primeira perda é necessária para entrarmos nesse mundo dos neuróticos. A partir dela, iremos vivenciar outros tipos de perdas como separações, frustrações, mortes que, muitas vezes, são imprescindíveis para o nosso desenvolvimento como indivíduo. Nesses momentos difíceis do nosso cotidiano gostaríamos que nossa mãe não nos deixasse sofrer. Mas evitar o sofrimento ou mesmo o trauma de uma criança não lhe falando sobre um acontecimento grave que lhe diga respeito é causar uma dor ainda maior. A verdade, mesmo sendo dura e evocando tristeza é sempre melhor que o não dito. O que destrói uma criança é sempre o que não lhe é falado, pois ela sempre sabe, mesmo que intuitivamente, a verdade.

É importante entender que até os 9 anos a criança é extremamente sensível e intuitiva, pois ela está  na fase de latência e isso faz com que todas as energias da criança sejam empregadas no sensorial das mãos, dos ouvidos, dos olhos, do corpo e da inteligência como um todo. Essa maior sensibilidade da criança nas mãos, nos olhos e nos ouvidos é bastante reduzida na puberdade, pois um impulso de energia vai para a genitália, desertando, assim, essa sensibilidade sensorial. É possível ver isso também em pessoas que ficam cegas. Essas pessoas passam a ter mais sensibilidade em outros órgãos para compensar a falta da visão.

Pela linguagem, as crianças são capazes de apreender informações através da forma como o adulto as expressa, ou seja, através do corpo. Mas, apreender não é o mesmo que compreender, pois, para a criança compreender ela precisa de um adulto que lhe fale o que está acontecendo. Caso contrário ela usa a sua imaginação para entender, por exemplo, porque sua avó não a visita mais. Os adultos sabem que a avó morreu, mas a criança pode imaginar que sua avó a abandonou e não gosta mais dela e, por isso, os adultos estão tão tristes.

Então, como devemos reagir com uma criança quando em nossa família a mãe ou um parente muito próximo se suicida? Seguindo nossa linha de raciocínio o importante é dizer a verdade. Claro que a forma de comunicação com a criança precisa ser adequada à sua faixa etária, mas é preciso que ela saiba do acontecido. Sabemos que falar imediatamente nem sempre é possível, seja porque não temos estrutura emocional e psicológica, ou porque não sabemos como dizer o que aconteceu, sendo preciso elaborar tudo para então falar com a criança. Sendo assim, não há uma data específica para que a criança saiba, pode ser dito imediatamente ou após 8 dias ou 15 dias ou um mês, o importante é que a desgraça seja dita. E quando for comunicar à criança diga a ela claramente:

- Ele morreu.

- Mas como?

- Isso se chama suicídio.

- Mas o que isso quer dizer?

- Não estou conseguindo falar sobre isso com mais detalhes agora, estou muito triste, podemos conversar melhor, em outro momento, ou então pergunte para seu pai, ou seu Tio, que talvez eles estejam podendo falar sobre isso agora.


É importante que o desejo da criança seja justificado e que ela possa abrir a possibilidade para esclarecer as suas dúvidas com outras pessoas. E nós adultos podemos sim dizer o quanto estamos tristes e o quanto não estamos conseguindo falar sobre o assunto ainda.


Imaginemos outro caso. A criança está na época de férias quando sua avó materna morre. Essa é uma avó muito querida e muito presente na vida dessa criança, por isso, os pais preferem não contar nada à criança para não estragar as suas férias. Os pais estão arrasados, em seus rostos pode-se ver a tristeza estampada, mas eles acreditam que conseguem esconder da criança tudo que está acontecendo.


Quando esta criança volta de férias ela quer ver a avó, mas os pais estão sempre inventando uma desculpa:


- Bem, não dá, a sua avó está no hospital.


E depois ela está sempre no hospital. O Natal se aproxima, a criança quer chamar a avó para passar o Natal com a família e então mais uma desculpa é inventada:


- Ah, não a sua avó está muito cansada.

- Mas, posso ligar para ela?

- Não, melhor não, pois ela pode se cansar.


E a coisa vai se arrastando dessa forma e pouco a pouco se abre um fosso e a criança se deprime.


Esse tipo de história onde as pessoas negam a morte de alguém próximo, seja avó, ou um amigo, ou mesmo um animal de estimação traz um grande sofrimento para a criança. “E essas crianças começam lentamente a perder a vitalidade porque não dispõem das palavras para dizer onde está a sua tristeza. Há nelas algo intenso que é desvitalizado. É preciso, pois, contar-lhes a verdade imediatamente”. (Dolto, Francoise, Tudo é linguagem, São Paulo, Martins Fontes, 2002, pg. 59).


Quando se diz a verdade para a criança ela consegue simbolizar, representar a dor, seja através de desenhos, fantasias, imaginações, dramatizações. Sendo assim é preciso falar sobre a dor para que esta seja resignificada e a criança não caia em um vazio, onde não consegue dar nome aos seus sentimentos. É preciso que o luto seja vivido e não negado, pois o sofrimento e a perda são sempre muito necessários para o nosso crescimento como indivíduo.

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