quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O mito do bebê que dorme a noite inteira

Já cheguei ao meu limite físico e emocional de madrugada. As noite mal dormidas acabam comigo. Nesses 10 meses já tivemos altos e baixos. Noites em que Bento acordou apenas uma vez, noites em que ele acordou cinco vezes. E duas, apenas duas noites que ele dormiu de meia noite às 6h. É, acreditem, essas foram nossas melhores noites nos últimos meses. E a angústia de não ver um fim para isso é de matar. 

Bento é um bebê incrível. Cheio de personalidade e sorrisos, ele só nos traz alegria até que anoitece... Ele não custa para pegar no sono. Às 21h já está cambaleando e é difícil segurá-lo por mais tempo acordado. O problema é que nós já sabemos que algumas horas depois ele vai despertar. Vai chorar, vai querer algo que não sabemos o que é. Na dúvida e com sono, muito sono, damos leite. Na maioria das vezes, ele volta a dormir. Mas daqui algumas horas ele vai despertar novamente. Provavelmente ainda não serão nem 6 horas da manhã quando ele resolverá acordar de vez. 

É uma luta. A batalha de não dormir e ter que estar de pé e ligada para o trabalho durante o dia é algo que não sei como consegui levar até aqui. E não tenho a menor ideia de como vou continuar levando. E sem querer ofender ninguém, pra mim, até que Bento me prove o contrário, mãe que diz que o filho bebê dorme a noite toda mente (ou tem um conceito de "noite inteira" diferente do meu). Nos primeiros meses de vida então, é mentira lavada. Até porquê todo mundo sabe que bebê recém-nascido dorme muito, mas precisa se alimentar de três em três horas. E eu confesso: toda vez que escuto a frase "Ah, meu filho sempre dormiu a noite toda", eu sinto um misto de inveja, raiva, ódio e admiração, entre outras coisas. 

E, claro, a declaração sempre vem acompanhada dos conselhos dessas mães exemplares que conseguem fazer seus filhos dormirem a noite toda, o que, definitivamente, não é o meu caso. Seguem algumas das dicas que eu já tentei seguir e o resultado delas com o meu filho.

1 - Coloca camomila na água do banho da noite.

Não fez efeito.

2 - Dê uma mamadeira para ele dormindo, quando você for deitar.

Simplesmente não mamou. Insistindo, ele acorda chorando. 

3 - Bote ele no berço, conte uma história em tom de voz baixo.

Fica em pé no berço e quer interagir com a história, dando gritos, o que o deixa mais agitado.

4 - Ao acordar de madrugada, chorando, vá no berço e explique para ele que é hora de dormir.

Ele continua chorando, chorando, chorando.

5 - Nada dando certo, coloque na sua cama.

Ele dorme e a gente não. 

Me pergunto todos os dias o que fiz de errado. E já cheguei a algumas conclusões. Uma delas é que as milhares de viroses que Bento teve nos primeiros meses de vida nos fizeram ter medo de deixá-lo chorando no berço. Vai que ele está sentindo algo? Acostumamos mal. Fizemos tudo o que os especialistas condenam: ninamos no colo, fizemos carinho, colocamos na nossa cama, demos leitinho. Aí, agora, que ele está bem e saudável, continua querendo colinho, carinho e leitinho para dormir. Mesmo que isso seja às 2h, 3h, 4h da manhã. 

Aí você pensa: a questão agora é como reverter isso. Só que na verdade eu e Bruno já cansamos dos livros, dos especialistas, das dicas e de tudo mais. Chegamos num ponto que achamos mais simples aceitar que nosso filho não dorme a noite toda e pronto. Aí a questão virou outra: como viver sem dormir?

Café e banho gelado têm sido bons aliados. 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O poder da Galinha Pintadinha

Já experimentou jogar no google o título desse post? Joga lá "o poder da galinha pintadinha" e veja o que acontece. São centenas de vídeos de bebês e crianças totalmente hipnotizadas! Uma atenção especial para a Valentina (o primeiro vídeo da lista). A bebê, que está aos berros, muda seu humor da água para o vinho ao ouvir os primeiros sinais de "Meu pintinho amarelinho...".


É realmente intrigante. Achei que já fosse encontrar algum tipo de estudo de pedagogos  ou psicólogos sobre o fenômeno, mas nada achei pela internet. E olha que merecia uma bela pesquisa (fica a dica!). Para quem não conhece, são desenhos primários, coloridos, bem simples. Um grupo de criancinhas que dançam e cantam cantigas infantis conhecidas por nossos pais e avós. A Galinha Pintadinha é simplesmente uma galinha azul com pintinhas brancas que é casada com o galo carijó e tem muitos pintinhos. De alguma forma ela é inserida nas canções, mesmo que não se fale em galinha. Simples assim. E talvez esteja aí o grande trunfo. Como uma amiga disse outro dia, a Galinha Pintadinha é o contrário de todas essas mil tecnologias criadas para acalmar bebês no mundo moderno. É simples como as crianças. Eles se entendem e talvez essa tenha sido a grande sacada. 

Bom, seja lá qual for o poder da galinha, o fato é que não há nada mais eficiente para cessar o choro de uma criança. E não só isso, deixá-la feliz, sorridente e até batendo palmas! Apesar disso, eu confesso que durante um período vivi um conflito interno. Nunca quis que Bento ficasse muito tempo em frente à TV. Não acho saudável. Mas aí ele vai crescendo e os escândalos crescem na mesma proporção. De repente, sem perceber, você passa a assistir Galinha Pintadinha 5 vezes ao dia. Eu, então, resolvi me policiar e dar limites para a galinha lá em casa. "Chega! Não é possível que a criança só se acalme com isso. Vamos conversar com ele. Ter mais paciência e esquecer dessa galinha um pouco".

Mas aí seu filho acorda às 4h da madrugada berrando. Nada, absolutamente nada, faz ele parar. Zumbi de sono, você não pensa nem duas vezes. Bota o dvd pra tocar. É instantâneo: Bento pára, pega a chupeta, deita no meu colo e em 3 minutos dorme de novo. Nessa hora (em especial madrugadas), todo o papo de overdose de TV e mais atividades educativas vão pelo ralo. É assim que grande parte das mães se dão por vencidas e a Galinha Pintadinha passa a fazer parte de sua vida como um anjo, por tornar seu sono e outras atividades possíveis, ou como um mantra diabólico que não sai da sua cabeça por nada! "MAMAMAMAMA, PAPAPAPAPA, QUIQUIQUIQUI, CACACACACA, HEY!" 

sábado, 8 de setembro de 2012

Perdas Necessárias

Por Vanessa Klevenhusen


Somos indivíduos que já começamos a vida com uma perda, pois ao nascermos saímos daquele lugar quentinho, aconchegante e silencioso que é o útero e somos lançados para um mundo que, num primeiro momento, é barulhento, frio e desconfortável. Chegando neste lugar diferente, iremos viver num estado de identificação completa com a nossa mãe. Essa conexão original de um estado de prazer indescritível é a ligação umbilical, a identificação biológica que se dá no útero. Fora do útero mantemos essa sensação ilusória e muito gratificante de compartilhar com nossa mãe uma fronteira comum. 

É verdade que não temos qualquer tipo de lembranças conscientes de quando estávamos no útero de nossa mãe, e nem mesmo quando o deixamos. Mas é real que um dia esse útero foi nosso e que tivemos que deixá-lo. E, apesar de estarmos entrando neste jogo cruel de desistirmos do que amamos para crescer e, embora esse tipo de atitude precise ser repetido a cada novo estágio de desenvolvimento; talvez essa seja a nossa primeira e certamente mais difícil renúncia. “A perda, o abandono, a desistência do paraíso”. (Viorst, Judith, Perdas Necessárias, São Paulo, Melhoramento, 2005, pg. 33).

Essa primeira perda é necessária para entrarmos nesse mundo dos neuróticos. A partir dela, iremos vivenciar outros tipos de perdas como separações, frustrações, mortes que, muitas vezes, são imprescindíveis para o nosso desenvolvimento como indivíduo. Nesses momentos difíceis do nosso cotidiano gostaríamos que nossa mãe não nos deixasse sofrer. Mas evitar o sofrimento ou mesmo o trauma de uma criança não lhe falando sobre um acontecimento grave que lhe diga respeito é causar uma dor ainda maior. A verdade, mesmo sendo dura e evocando tristeza é sempre melhor que o não dito. O que destrói uma criança é sempre o que não lhe é falado, pois ela sempre sabe, mesmo que intuitivamente, a verdade.

É importante entender que até os 9 anos a criança é extremamente sensível e intuitiva, pois ela está  na fase de latência e isso faz com que todas as energias da criança sejam empregadas no sensorial das mãos, dos ouvidos, dos olhos, do corpo e da inteligência como um todo. Essa maior sensibilidade da criança nas mãos, nos olhos e nos ouvidos é bastante reduzida na puberdade, pois um impulso de energia vai para a genitália, desertando, assim, essa sensibilidade sensorial. É possível ver isso também em pessoas que ficam cegas. Essas pessoas passam a ter mais sensibilidade em outros órgãos para compensar a falta da visão.

Pela linguagem, as crianças são capazes de apreender informações através da forma como o adulto as expressa, ou seja, através do corpo. Mas, apreender não é o mesmo que compreender, pois, para a criança compreender ela precisa de um adulto que lhe fale o que está acontecendo. Caso contrário ela usa a sua imaginação para entender, por exemplo, porque sua avó não a visita mais. Os adultos sabem que a avó morreu, mas a criança pode imaginar que sua avó a abandonou e não gosta mais dela e, por isso, os adultos estão tão tristes.

Então, como devemos reagir com uma criança quando em nossa família a mãe ou um parente muito próximo se suicida? Seguindo nossa linha de raciocínio o importante é dizer a verdade. Claro que a forma de comunicação com a criança precisa ser adequada à sua faixa etária, mas é preciso que ela saiba do acontecido. Sabemos que falar imediatamente nem sempre é possível, seja porque não temos estrutura emocional e psicológica, ou porque não sabemos como dizer o que aconteceu, sendo preciso elaborar tudo para então falar com a criança. Sendo assim, não há uma data específica para que a criança saiba, pode ser dito imediatamente ou após 8 dias ou 15 dias ou um mês, o importante é que a desgraça seja dita. E quando for comunicar à criança diga a ela claramente:

- Ele morreu.

- Mas como?

- Isso se chama suicídio.

- Mas o que isso quer dizer?

- Não estou conseguindo falar sobre isso com mais detalhes agora, estou muito triste, podemos conversar melhor, em outro momento, ou então pergunte para seu pai, ou seu Tio, que talvez eles estejam podendo falar sobre isso agora.


É importante que o desejo da criança seja justificado e que ela possa abrir a possibilidade para esclarecer as suas dúvidas com outras pessoas. E nós adultos podemos sim dizer o quanto estamos tristes e o quanto não estamos conseguindo falar sobre o assunto ainda.


Imaginemos outro caso. A criança está na época de férias quando sua avó materna morre. Essa é uma avó muito querida e muito presente na vida dessa criança, por isso, os pais preferem não contar nada à criança para não estragar as suas férias. Os pais estão arrasados, em seus rostos pode-se ver a tristeza estampada, mas eles acreditam que conseguem esconder da criança tudo que está acontecendo.


Quando esta criança volta de férias ela quer ver a avó, mas os pais estão sempre inventando uma desculpa:


- Bem, não dá, a sua avó está no hospital.


E depois ela está sempre no hospital. O Natal se aproxima, a criança quer chamar a avó para passar o Natal com a família e então mais uma desculpa é inventada:


- Ah, não a sua avó está muito cansada.

- Mas, posso ligar para ela?

- Não, melhor não, pois ela pode se cansar.


E a coisa vai se arrastando dessa forma e pouco a pouco se abre um fosso e a criança se deprime.


Esse tipo de história onde as pessoas negam a morte de alguém próximo, seja avó, ou um amigo, ou mesmo um animal de estimação traz um grande sofrimento para a criança. “E essas crianças começam lentamente a perder a vitalidade porque não dispõem das palavras para dizer onde está a sua tristeza. Há nelas algo intenso que é desvitalizado. É preciso, pois, contar-lhes a verdade imediatamente”. (Dolto, Francoise, Tudo é linguagem, São Paulo, Martins Fontes, 2002, pg. 59).


Quando se diz a verdade para a criança ela consegue simbolizar, representar a dor, seja através de desenhos, fantasias, imaginações, dramatizações. Sendo assim é preciso falar sobre a dor para que esta seja resignificada e a criança não caia em um vazio, onde não consegue dar nome aos seus sentimentos. É preciso que o luto seja vivido e não negado, pois o sofrimento e a perda são sempre muito necessários para o nosso crescimento como indivíduo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Amamentar ou não - Sem culpas!

Desde que tive o Bento, uma das coisas que futuras mamães mais me perguntam é sobre a amamentação. As dúvidas são muitas e eu não costumo fazer rodeios. Falo da minha experiência com franqueza, sem medo de julgamentos alheios. Até porque se tem uma coisa que, na minha opinião, prejudica a amamentação é a falta de informações verdadeiras sobre ela. Afinal, nós somos induzidos a acreditar por filmes e campanhas publicitárias que vamos colocar nosso bebê no peito e ele vai mamar, mamar e mamar feliz da vida e todos seremos felizes para sempre. E, definitivamente, não é assim que as coisas acontecem. 

Pode ser até que gere polêmica, mas a minha opinião sobre as campanhas de incentivo a amamentação não é muito positiva. Acredito sim no poder do leite materno, até porque milhares de pesquisas comprovam isso, mas acho um equívoco você pressionar as mulheres a fazê-lo. Porque pode não parecer, mas é assim que muitas se sentem: pressionadas pela sociedade que acredita que mãe que não dá o peito não é mãe. E isso torna tudo tão mais difícil. 

Eu conheço mulheres que não conseguiram amamentar por diferentes razões. Uma delas, por ter o bico do seio invertido, o que significa que o mamilo da mulher não tem um formato que facilita a sucção do bebê. Essa situação é muito mais comum do que se imagina e muitas mães que passam por isso vivem momentos difíceis até aceitarem que não poderão amamentar. "Você se sente uma incapaz. É horrível. As pessoas insistem para você continuar tentando, enquanto o seu filho morre de fome por não conseguir sugar nada", conta uma mãe que não quis se identificar. Veja só, ela tem até vergonha de dizer aos outros que não amamentou. Depois de muito relutar, essa mãe foi orientada a tirar seu leite com uma bomba e oferecer em uma mamadeira a seu bebê. "Foi uma libertação para mim e para ele", descreve. 

Minha experiência com o Bento foi de muita dor nos primeiros dias. Mas muita dor mesmo.  Meu peito ficou ferido e eu fui atrás de todos os métodos para superar aquele momento difícil. As conchas de silicone foram as primeiras aliadas. Com elas, seu bico não encosta no tecido do sutiã e tem tempo de cicatrizar entre uma mamada e outra. Depois descobri o bico de silicone. Você coloca em cima de seu bico e o bebê suga por ele, sem encostar no local machucado, também dando mais tempo para a cicatrização. As pomadas não foram muito eficazes no meu caso - nem mesmo a gringa lansinoh. Mas com todos esses métodos foi possível aguentar a dor e após duas semanas de sofrimento, o ato de amamentar se tornou bastante prazeroso para ambos. Mas conheço mulheres que não conseguiram passar por esse momento. Já ouvi casos de bicos que ficaram pendurados! E quem é que vai julgar? 

Uma vez ouvi um depoimento muito interessante de uma mulher que tinha superado um câncer de mama e depois engravidou. "Amamentar não se resume em dar o peito ao bebê. O ato de alimentar seu filho é o que cria o laço. Eu posso não dar o seio, mas eu o alimento no colinho com todo o carinho e cuidado que uma boa mãe precisa ter nesse momento único". Achei essa colocação perfeita. Nós já estamos cansadas de saber os benefícios do leite materno, mas e os benefícios de se alimentar nosso filho em paz, com tranquilidade? Se por algum motivo, você não pode dar seu seio para seu bebê, não se culpe. E pais, por favor, não julguem suas mulheres! Compreendam que o bem estar da mãe significa o bem estar do filho.