quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Você sabe lidar com as descobertas sexuais de uma criança?

As fotos dessa matéria foram feitas pela fotógrafa Allana Amorim. A futura mamãe da Flora, que deve nascer em dezembro, nos emprestou seu talento e sensibilidade de grávida nesse lindo ensaio. Confira o álbum aqui. 


O que faz você escolher uma creche para o seu filho? Estrutura, limpeza, higiene, equipe e atividades? É com isso que praticamente todos os pais se preocupam na hora dessa escolha difícil. O que quase ninguém pensa é qual a linha dessas instituições. E, principalmente, como a creche lida com a sexualidade infantil. Aí você vai pensar: “Claro que não penso nisso”.  Aí eu que te pergunto “E por que não?”. Afinal, é exatamente nessa idade (entre 0 e 5 anos) que os pequenos fazem o autoconhecimento de seus corpos e também tem curiosidades sobre o corpo dos coleguinhas. É exatamente nessa fase que as perguntas constrangedoras acontecem. E a condução dessas situações irá influenciar muito a vida dessas crianças. 

Mas a questão toda é que mesmo que você perguntasse na creche como eles reagem nesses momentos delicados, poucas teriam a resposta na ponta da língua. A verdade é que grande parte desses profissionais não está bem preparado para encarar a sexualidade infantil de frente. “O comportamento mais comum é fingir que não vê, distrair a criança e não falar sobre o assunto”, conta a psicóloga Virgínia Georg Schindhelm. Há sete anos, ela se “infiltrou” em duas creches para estudar o comportamento dos profissionais da área quando defrontados com assuntos que envolvem sexualidade e gênero. Defendeu uma tese de mestrado e agora termina um doutorado sobre o assunto. O Família do Ben bateu um papo com essa especialista e falamos de tudo um pouco: masturbação, amor, respeito, intimidade, preconceito etc. Veja na entrevista a seguir.

1)      Como você se tornou especialista em sexualidade infantil?

Ao fazer uma especialização em sexologia humana, chamou-me muito a atenção como faltava material sobre a sexualidade infantil. Na busca por um tema para a tese de mestrado, percebi que havia uma lacuna na educação infantil. A grande maioria dos profissionais fez pedagogia e não existe em nenhum momento um espaço para se falar, ler ou discutir sobre isso no curso.  Então achei que seria de grande ajuda um estudo mais profundo sobre a sexualidade infantil no ambiente escolar.

2)      Qual a responsabilidade da creche na formação de uma criança?

O maior desafio do ambiente escolar hoje é o binômio cuidar-educar. É importante parar para pensar: O que a creche faz? Cuida ou educa? E o que é educar? É cuidar também? E quando se cuida se educa também? Quando você troca a fralda de um bebê, você faz isso meramente como um instrumento ou você conversa com esse bebê? Quando você promove essa experiência com uma criança, você não está só cuidando dela, você está criando um vínculo de intimidade, de segurança, respeito, carinho. Você está ensinando a ela que a região genital é uma região mais sensível, que precisa ser tratada com respeito, com carinho. Isso é educar.

3) Na sua tese, você relata um diferencial de uma das creches usadas na pesquisa de campo: havia homens no quadro de cuidadores/educadores. Por que 99% dessas instituições só têm funcionárias mulheres?

A história da educação no Brasil mostra que a feminilização do magistério infantil vem de muitos anos. Eu acompanhei oito rapazes que trabalham em creche e foi muito interessante. O primeiro a chegar relatou que ao contratá-lo, a instituição o apresentou aos pais e explicou que ele participaria de tudo, inclusive da higiene das crianças. Surpreendentemente, na época, apenas uma família não concordou e retirou sua filha da creche.  Para que a adaptação desses funcionários fosse feita, com maior tranquilidade por parte deles e dos pais, ficou decidido que seria feita uma "dobradinha": sempre trabalhariam um homem e uma mulher juntos, principalmente, nos cuidados com o corpo. Alguns anos depois, os pais já reconhecem os benefícios da presença masculina na creche e tem alguns que até reclamam quando não há um educador para a turma de seus filhos. É realmente muito saudável e importante, inclusive, para os meninos, que se identificam.

4)      Com que idade e como uma criança demonstra sua sexualidade?

Quando você tira a fralda de um bebê e ele leva a mãozinha aos genitais, ele acha graça e gosta. Aquilo que nós chamamos de masturbação, eu gosto de chamar de auto exploração ou autoconhecimento. A área genital da criança é muito sensível e que traz muito prazer. Porém, a nossa sociedade ainda é muito tradicional nesses conceitos, de modo que a área genital não é uma área que deva ser tocada ou mostrada. Por isso a masturbação incomoda tanto o adulto. A criança não está fazendo nada para mostrar para o adulto. Ela simplesmente está explorando uma área do corpo que ela sente muito prazer.

5)  Há preocupação de menos, tanto dos pais quanto das instituições, de ter uma ideologia clara de comportamento a ser seguida, assim como acontece nos colégios de ensino fundamental, por exemplo?

Praticamente nenhum pai chega na creche e pede para ver qual a política pedagógica dessa escola. O que muitas vezes os relatos me mostram é que, no fim do dia, os pais reclamam porque o filho está indo para casa sujo, mas não se interessam em saber qual o trabalho e atividades foram feitos naquele dia. Se elas forem bem higienizadas, bem alimentadas, os pais acreditam que a criança está bem cuidada. E isso é um equívoco. É muito importante que os pais cobrem uma proposta pedagógica das instituições. Escolas de educação infantil sérias têm projetos políticos pedagógicos muito sérios e bem elaborados. 

6)   Em trecho de seu trabalho você fala sobre a imposição de valores sobre as crianças. ainda é notória a existência de uma política detentora do saber e do poder que submete a cultura infantil à cultura do adulto pressupondo e prejulgando o que os pequenos podem/não podem saber e o que devem/não devem fazer. Nas relações de poder que perpassam pelos adultos e crianças, nossa sociedade ainda impõe valores e ideologias de uma cultura sem o respeito à natureza infantil, às suas necessidades e aos seus interesses”. Como podemos evitar esse comportamento?

Um exemplo dessa relação foi uma aula de artes que presenciei. As crianças tinham que criar árvores. A educadora disponibilizou pedaços de papel marrom para que eles fizessem os troncos e pedaços de papel verdes para que fizessem as folhas. As árvores, claro, saíram todas iguais. Aí é o momento de parar pra pensar: Por quê? Todas as árvores têm troncos marrons e folhas verdes? Não se deu elementos para essas crianças criarem. Não é você quem tem que resolver qual é a cor da árvore. Outro exemplo: uma professora distribuiu folhas com desenho para as crianças colorirem. Antes de elas pintarem, a professora ensinou que a grama era verde, o sol amarelo e as nuvens azuis. Uma das crianças pintou as nuvens de preto. A professora disse que estava errado e mandou-o fazer de novo. Mas ele voltou a entregar a mesma nuvem preta. Foi então que eu perguntei a ela: “Fulana, que cor são as nuvens quando chove? Elas não podem mesmo ser pretas?”. Então ela resolveu aceitar o desenho. Temos que ter a sensibilidade de não passar essas verdades construídas. Deixar a criança criar.

Muitos educadores entram na relação pedagógica com apenas a intenção de ensinar e não se abrem para aprender com essas crianças. E ensinam o que afinal? Que a nuvem só pode ser azul ou que a árvore só pode ser marrom e verde? Não é por aí. Muitas vezes você mostra figuras para uma criança, que para você são obvias, e a criança tem uma interpretação totalmente diferente. Por que você não pode aprender com elas e saber o que elas querem dizer?

7)   Muitos pais desconfiam da educação feita na base do diálogo, por achar que essa liberdade não combina com disciplina. Como diálogo e disciplina podem caminhar juntos?

O conceito de disciplina vem de um ranço histórico. Os primeiros modelos de escola que nós tivemos foram as jesuíticas, onde os eclesiásticos ensinavam o conteúdo que considerassem adequado. Eles que construíam como queriam a moral de uma criança. Esse modelo ainda perdura até hoje, por isso a árvore só pode ser marrom e verde a nuvem tem que ser azul. É aquilo que chamamos de conteudista, ou seja, quanto mais conteúdo você ensina para a criança, mais ela sabe. A questão é: sabe mesmo? Eu aprendo números, nomes, datas e o que mais? São modelos onde espaço para pensar, criar e refletir não existe. O método do “eu ensino e você fica aí quieto”. Eu já vi escolas de educação infantil onde a criança que acaba o trabalhinho, entrega para a professora, volta para o seu lugar, cruza os braços e baixa a cabeça. “Não é a sua hora de falar, você levanta o dedo e na sua hora eu chamo”. Mas quando a criança tem uma ideia na cabeça, ela quer mostrar. Se você esperar dez minutos, ela esquece. E você perde uma grande oportunidade de ouvir. A disciplina não vai por aí. O fato de você dar voz para essa criança não quer dizer que ela é indisciplinada. A educação infantil precisa dar esse espaço para as crianças. Quando ela é respeitada e é ouvida no momento que quer falar, ela também vai saber ouvir.

8) A maioria dos educadores de frente para uma situação em que a sexualidade infantil se expõe, como a masturbação, por exemplo, finge que não vê e não fala sobre o assunto. O que tem de errado nesse comportamento?

Esse assunto com certeza é um dos que mais angustiam os educadores. Eu começo sempre dando um exemplo: se você tem uma criança que faz um cachinho no cabelo e que fica horas enrolando o cabelinho, aquilo é uma forma de prazer. Você nega isso a essa criança ou você diz “tira a mão daí?”? Não. Mas se ele toca nos seus genitais, na grande maioria das vezes, você finge que não vê ou você manda tirar a mão. Fora os que gritam e etc. Não existe uma maneira certa para todo mundo, mas eu sugiro que em primeiro lugar você mostre que você está vendo. Quando você finge que não vê, ela sabe que você está vendo e isso pode ser mal interpretado. Em segundo lugar, eu digo que temos que ter naturalidade para falar com a criança sobre isso. Usarmos o mesmo tom de quando falamos sobre outros assuntos. “Eu estou vendo que você está fazendo uma coisa que você está gostando”. Conversa, fala baixinho. Se ela sentir que você não está brigando, está vendo o que ela está fazendo e está respeitando, você cria um canal de intimidade com essa criança extremamente importante. Assim, quando ela tiver qualquer questão, ela virá a você pra falar.

9)      E o que fazer quando encontramos duas crianças se tocando entre si?

Em primeiro lugar é entender que a criança não tem maldade. Ela tem curiosidade. Há muitos pais que se incomodam ao saber que seus filhos homens, por exemplo, tocam outros meninos. Nesse momento, é importante ficar calmo, não brigar, mas conversar.
É mais comum encontrar os meninos nessas situações e isso não quer dizer que de maneira nenhuma que essa criança seja homossexual. Na nossa cultura o tamanho do pênis está sempre associado a uma virilidade. É comum que os meninos de 3 ou 4 anos já abaixem as calças para comparar os tamanhos.  Então ao se deparar com essa situação, o diálogo é sempre o melhor caminho.

10)   Pais e creche devem dialogar sobre isso?

A parceria com os pais é sempre muito positiva. É importante que eles saibam como a creche lida com isso, inclusive para ajudá-los também a conduzir essa situação em casa. E esse alinhamento é muito importante também para não confundir a criança.

11)   O que as creches devem fazer para preparar melhor seus profissionais?

A proposta de uma formação continuada é um primeiro passo. Um momento em que você dá espaço para que educadores falem sobre todas essas questões que eles vivenciam na creche, sejam de gênero, sexualidade ou mesmo de respeito. Muitas vezes, quando chego nas creches para essas conversas sou recebida com alívio. “Nossa, ainda bem que você apareceu para podermos falar sobre isso”. Deve-se investir na formação continuada, já que na formação os pedagogos não têm isso. No caso dos psicólogos que trabalham nessas instituições, o que existe no curso é a parte teórica.  Mas do que adianta eu saber que existem as fases oral, anal, período de latência em algumas situações? O que eu faço com isso quando a criança esta se masturbando? Ou o que eu faço quando a criança abaixa a calça do outro para manipular os genitais do outro? Ou quando as crianças se beijam na boca? “Ah, será que a criança está na fase oral? Não, mas a fase oral era de 0 a 2 anos”. Tá e aí? O educador quer uma resposta. O que eu faço? Por outro lado eu digo. Não existe uma regra. No fundo as crianças são diferentes, as experiências que elas vivem são diferentes. Mas se o educador se sente mais seguro, tendo clareza dos conceitos, tentando identificar naquilo que a criança está fazendo como algo simples, de curiosidade, de prazer com ela mesma, desmistifica. E eu tenho na minha tese relatos do quanto isso muda. Não fica pensando se está certo ou tá errado. Naquele momento foi legal pra você, foi legal para a criança. Então ótimo, é isso. Não quer dizer que com outra criança dará certo.

12)   Agora, uma dica para os pais e educadores. "De onde eu vim?”. Em algum momento essa pergunta vai chegar. Qual a melhor maneira de explicar isso a uma criança?

Eu sempre enfatizo a importância de falar a verdade para as crianças, de maneira clara e objetiva. Tipo: "você nasceu da barriga da mamãe" e acrescento que é sempre bom ilustrar esta fala com uma imagem. Pela imagem a criança não fantasia e entende melhor. Ou ainda "você veio de um gostoso namoro/amor/carinho entre o papai e a mamãe" e procure mostrar essa imagem. 


13)   Como esses sete anos de especialização mudaram sua vida?

Aprendi a importância de escutar a criança e isso me ajudou a desconstruir uma série de pré-conceitos, tabus e mitos que eu mesma tinha. Porque eu também venho de uma cultura escolar e familiar tradicional. Esse aprendizado só me fez lamentar uma coisa. Gostaria que isso tivesse acontecido antes na minha vida. Eu poderia ter criado meus filhos de uma forma diferente. Hoje, eu procuro lidar com o meu neto, dentro das minhas possibilidades, de uma forma diferente. As crianças estão aí para nos fazer ver o mundo de uma forma diferente. 


Vírgínia é pesquisadora da UFF/CNPQ e atende em eu consultório como psicóloga, sexóloga e terapeuta sexual. É esposa de Erwin, mãe de Vivian e Richards, e vó dedicada de Thomas, um menininho esperto que adora fazer perguntas.



3 comentários:

  1. Bela matéria! Sou suspeita, pois participei de perto de toda essa pesquisa, estudo e descobertas, mas confesso que eu mesma passei a ver a educação infantil de irmã muito diferente! Acho que todos os pais e adultos que lidam com crianças deveriam ler mais sobre o assunto e procurar uma nova forma de lidar com tudo isso! Adorei! As fotos também estão lindas!!!

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  2. Eu também me considero suspeita, pois sou irmã da Virgínia. Porém sou professora e mãe e já trabalhei em escola particular e vivenciei situações relativas a sexualidade das crianças e vi como é difícil para os educadores tratarem deste assunto por falta de informação e estudo mesmo. Acho este estudo da Virgínia de extrema importância e desejo que este assunto, sexualidade infantil, seja incluído na grade do curso de Pedagogia e de formação de Educação Infantil! Nunca é tarde para aprendermos e repensarmos nossos conceitos!!!!! Parabéns minha irmã pelo belo trabalho!

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  3. Bela matéria mesmo, assisti a uma palestra dela recentemente e é uma pena que alguns pais e até mesmo educadores não queiram saber mais sobre o assunto, porque é de grande valia ainda no mundo que vivemos hoje.

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